Filed under: digressões | Tags: Copa de 2014, jornalismo, mídia corporativa, mobilidade urbana
Com um pouco mais de ousadia aqui que o outro, um pouco menos ali, os dois grandes jornais corporativos da cidade comemoram a construção dos quatro viadutos na Agamenon. “O FUTURO EM 3 ANOS” diz o Diário, “O TRÂNSITO DO FUTURO” diz o Commercio (11/08/2011), num discurso onde o termo futuro figura como sujeito de um estado superior. Semelhante aos planos quinquenais na Rússia stalinista, aos 50 anos em 5 no Brasil de JK ou ao milagre econômico da ditadura militar, o “futuro em 3 anos” repete mais um capítulo do capitalismo desenvolvimentista.
A mobilidade na cidade do Recife já saturou faz muito tempo e é apenas sob um olhar muito desatento que não percebemos essa realidade. Não há mais horário pra se pegar trânsito, ele existe toda hora, os ônibus estão completamente lotados e neles ainda sofremos com o congestionamento das vias, os altos preços de suas tarifas e com a natureza violenta e desumana do tráfego viário que joga os passageiros pra lá e pra cá dentro do ônibus como se fosse um saco de batatas. O motivo desse cenário lamentável é o contínuo investimento em transporte privado e motorizado. O metrô de Recife é irrisório, não existem ciclovias ou VLT’s e ainda não se usa os rios na Veneza brasileira. E qual é o sentido de ser desse cenário se todos sabem que pra resolver o problema da mobilidade precisamos investir em transporte público e não rodoviário?
Bem, os dois jornais já citados nos dão uma dica do motivo de se estar caminhando para a barbárie. Logo abaixo da matéria do futuro o Commercio grita: “Gigantes no rastro da Fiat no Estado”. Apesar de que o secretário das cidades, segundo o Diário, diz que eles estão priorizando o transporte público nas obras da copa não é o que parece, não parece ser o que os jornais querem e não parece ser o que a grande protagonista do desenvolvimento – a fábrica da FIAT – vai encabeçar. A chegada da fábrica da Fiat no estado é a principal matéria do caderno de economia dos dois jornais por que é a principal promessa de desenvolvimento. Não se trata apenas de entender o projeto de “mobilidade” dessas duas corporações midiáticas, mas de entender o que a elite política e econômica planeja para nossas vidas, já que esses jornais são seus fiéis veículos de expressão, fazendo com que o caderno de economia pareça com o diário pessoal dos industriais relatando como andam seus negócios.
Eles deixam claro: “a Fiat vai beneficiar o estado com empregos e investimentos”. Isso por que uma montadora de automóveis precisa de várias outras fábricas satélites fornecedoras para poder funcionar e é nisso que eles apostam o surto de industrialização que vai criar vários distritos industriais, levar o desenvolvimento para o interior, criar novos empregos e deixar todos felizes para sempre. Mas me parece muito claro como se deu a negociação que convenceu a FIAT a se instalar por aqui: “Bem, Dudu, me ajude que eu lhe ajudo, gaste bilhões em estrutura viária por que se você investir num bom metrô pra quem iremos vender os carros? Pelo que consta em meus relatórios o Recife está saturado, as pessoas não aguentam mais o trânsito da cidade, então crie mais espaço para carros que eu levo o desenvolvimento para o Estado e garanto a reeleição de seu gabinete”. E assim a classe dominante está feliz para sempre.
Que tipo de retardado o secretário das cidades, Danilo Cabral, e a equipe de edição do “Diário” acha que somos para acreditar que o governo está priorizando o transporte público? Na capa do caderno de economia do diário uma publicidade de automóvel ocupa 90% do espaço, viramos a página e mais publicidade de carros, em todas as páginas, com exceção de uma, nos deparamos com essas propagandas, no Commercio tudo se repete de uma forma surpreendentemente idêntica, com uma diagramação de capa idêntica, só que dessa vez há publicidades em todas as páginas do jornal. A chegada da fiat é ovacionada, a construção dos viadutos é elogiada e legitimada perante o público através de depoimentos em favor do projeto de pessoas comuns como taxistas. Que tipo de retardado eles acham que somos?
Eu nunca entendi tão lucidamente, da janela do meu apartamento em horário de pico, o que Rosa Luxemburgo quis dizer com “socialismo ou barbárie”. A fórmula é a seguinte: para se resolver o problema da mobilidade precisamos reduzir drasticamente o número de carros, investir em transportes públicos sobre trilhos ou ciclovias, mas o capital não permite. Metrô e bicicleta não geram o consumo, a gigante cadeia industrial e consequente acúmulo de capital absurdo que os carros geram. Então pra que investir em mobilidade urbana se o que realmente importa para nossa sociedade é o progresso do capitalismo? Todo o resto é um acidente secundário.
É como se eu estivesse assistindo a minha cidade se encaminhar mais uma vez para a barbárie (quer uma imagem mais fiel da barbárie que a hora do rush?) quando teve a oportunidade de caminhar numa outra direção. Em qual outro momento teremos investimentos tão altos e tão objetivos em “mobilidade” quanto esses três anos que nos separam da copa e que estamos jogando tudo por água abaixo?
RecifeResiste!
11 Comentários até o momento
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parabéns ótimo texto
Comentário por pedro queiroz 18/08/2011 @ 15:56ai que barra, meldels.
Comentário por clairssa 18/08/2011 @ 22:58boas observações.
excelente texto. resumo bem o embaralho caotico da mobilidade no recife, que tem escala semelhante com cidades como belo horizonte. rompemos de fato a barreira de que nao há mais horário pra se pegar transito. a sua onipresença que impera degradando o espaço da cidadao e principalmente o transporte de massa. transporte público esse que na situação vivida hoje deveria ao menos ter seu devido espaço reservado, na forma corredores exclusivos (AO MENOS) nos eixos viaros principais, como av. norte e corredor norte-sul, rosa e silva, rui barbosa etc.
a bicicleta surge como elemento de complemento a esse transporte e é um importante aliado. mas de fato o que caótiza a questão é o urbanismo rodoviarista, que como nessas ultimas noticias de laços viários inebriantes a enfeiar a cidade, temos também a recente expansão do elevado de joana bezerra sobre a sofrida comunidade do coque que tem um desafio na convivência diária com aquele monstro viário degradante e não inclusivo em termos de mobilidade e acessibilidade ao espaço urbano. obras como essa aliviam a reputação da prefeitura com a classe media motorizada, são remediações para um futuro cenário eleitoral. e custam aos demais cidadão usuários do transporte público e de força humana o mais completo abandono e marginalidade de acesso ao território urbano.
importante lembrar também a supressão de rios e corregos, bem como de suas várzeas na cidade do Recife em decorrencia do urbanismo rodoviarista, degradante ambiental e social.
Comentário por Tiê 19/08/2011 @ 08:54Excelente texto!
Comentário por Otávio Augusto 19/08/2011 @ 12:03Ressalto o comentário do Tiê, nosso urbanismo “rodoviarísta” (que talvez nem assim deveria ser chamado, pois as decisões a cerca da construção de obras como o viaduto Cap. Temudo não tem vindo efetivamente de nossas instituições de planejamento) é demente e esquizofrênico!
Recife é uma cidade predominantemente compacta do tipo mediterrâneo e, contraditoriamente, tem se cultivado aqui um estilo de vida correspondente ao de cidades modernas e difusas de estilo anglo-saxônico, em outras palavras, o American way of life que, por sua vez, tem no transporte motorizado individual seu modelo de mobilidade.
O que me consola é que o caos decorrente desse processo pode ser mais “democrático”, atingindo a todos, e não apenas os pobres (como de costume), porque esse modelo é insustentável para qualquer classe, é uma bomba relógio. A não ser que comecem a fabricar carros flutuantes.
Ótimo texto, e esse é um projeto de todas as cidades desse país, para além daquelas que estão como subsedes da copa.
Parabéns ao blog!
Comentário por Thiago Machado 19/08/2011 @ 15:20Essa matéria é ruim em todos os aspectos possíveis. Vou tentar resumir minha crítica em 4 pontos:
Comentário por Daniel 19/08/2011 @ 23:561 – A fabrica da Fiat não vai fazer as pessoas comprarem mais carros, já que, para isso, precisam de uma coisa chamada de poder aquisitivo, mais conhecida como “dinheiro”. A Fiat simplesmente vai fabricar carros;
2 – As pessoas não compram automóveis em razão da qualidade das vias, mas sim de acordo com suas próprias necessidades;
3 – Se o projeto da Av. Agamenon sair do papel, vai melhorar muito nao só o transporte particular, como também o público;
4 – A especulação de que a Fiat tenha negociado com uns tantos políticos pra eles deixarem o transporte público deficiente é completamente absurda. De onde você tirou isso? Daria um bom enredo pra um filme de mafiosos ou coisa do tipo.
Enfim, quem foi o retardado que escreveu isso? Esses blogueiros falam muita merda…
“recife resiste!
Blog de contra-informação sempre em construção. Uma pequena ajuda para a derrocada do capitalismo.
Resistir!”
Comentário por ababa 20/08/2011 @ 11:45Bicho, um grau na Agamenon será sempre bem vindo! Acredito que ideal – taambém – seria a implantação do sistema de rodizio de carros, aqui em Recife. Acho melhor que isso seja implantado o quanto antes, por que caótico já está, mas sempre é possível piorar.
Comentário por Angelo 22/08/2011 @ 13:14Angelo, rodízio de carros realmente é uma boa ideia nesse estado que o recife se encontra. mas se houvesse planejamento de mobilidade urbana isso nem seria cogitado.
Comentário por milena 27/08/2011 @ 20:47Enxugar a Agamenon com 4 viadutos…(imaginem como será uma Agamenom com obras faraônicas em quatro pontos distintos e ao mesmo tempo, o Recife vai parar mesmo!) e as vias que recebem esse fluxo “enxuto”, aguentarão até quando? Recife tende ao caos viário sem alternativas concretas já que nunca existiu um plano diretor geral e planejamento urbano sério. Enquanto muitos se juntam e levantam suas bandeiras nas, modásticas, marchas de títulos sortidos, não vemos ecoar um grito sequer contra as empresas de transporte públicos, madrinhas fiés dos gestores municipais e estadual. Até quando o Recife (leia-se RMR), famoso pelo pioneirismo de suas revoluções, dormirá em berço explêndido alheio a tudo e a todos? Precisamos acordar e começar a exigir de fato nossos mais simples e prioritários direitos. Não apoio a idéia, um tanto ponderável, de teoria da conspiração, como também, a de apoiar a megalomania capitalista.
Comentário por Ambvas 24/08/2011 @ 11:05Só para completar: falta muito para o transporte público nesta cidade, como antes disso, falta ainda muito para a mobilidade básica: podermos nos deslocar a pé!
Comentário por Kasca 05/09/2011 @ 10:07Falta de calçadas, calçadas como estacionamento, calçadas quebradas, falta de faixas para travessia (e quando existem, muitas vezes absurdas, quem já tentou atravessar a Agamenon sabe disso…), falta de sinal para pedestre, falta de iluminação, etc. Tudo isso sendo fácil e rápido de implantar e resolver, quando há vontade.
Recife, cidade dos carros e dos motoristas. Tem até um pessoal fazendo uma campanha “Estou motorista, sou pedestre”.