recife resiste!


Quem são e como vivem os moradores do Trianon
13/10/2010, 19:07
Filed under: digressões | Tags: , , ,

No último dia 9 de setembro, Edson do Nascimento, 29 anos, entrou num ônibus fretado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em direção a um lugar ainda desconhecido. Por volta das 4 horas da manhã estacionaram em frente ao Edifício Trianon, na Avenida Guararapes, e um dos líderes anunciou que ali seria o local ocupado. Edson é um dos coordenadores estaduais do movimento e organiza mais de 350 pessoas nos sete andares do imóvel, uma média de 120 famílias. Ícone da arquitetura dos anos 1940, o prédio servia apenas como camarote do Galo da Madrugada, no Carnaval.

Do lado de fora, Priscila, uma menina não maior que 18 anos faz vigília na porta do prédio. Ela se reveza com outra pessoa em turnos de 24×24 para que ninguém entre sem permissão no Trianon. Não-moradores também não podem andar descompanhados dos coordenadores de andar – seis ao todo – nem entrar sem serem anunciados. Há muita organização em diversos setores como iluminação, limpeza, convivência e também política, ainda que muito precária. “Quando chegamos aqui encontramos muito lixo, entulho. Pessoas entravam para defecar, estava imundo”, lembra Edson, que junto com os moradores iniciou a limpeza de todos os andares.

Existe organização entre a precariedade e o improviso. Cada antiga sala se transformou num apartamento fechado com cadeado. Ao lado de antigos patrocinadores do Carnaval pintados na parede estão os números de cada moradia. Alguns têm a inscrição com o nome atual morador e sua função. “Conceição coordenadora”, dizia um no terceiro piso. Entre as atribuições dessas pessoas estão a de zelar pela boa convivência entre os Sem-Teto, mediar brigas, anotar reclamações e manter a discrição dos ocupados na vizinhança. Com eles também ficam a chave dos banheiros. Cada andar também tem dois, sem água corrente nem chuveiro. A água do prédio estava cortada e por isso foi feito uma ligação clandestina, mas a água que sai é salobra. “Buscamos água em Paulista, em outra ocupação, mas é insuficiente”.

Vídeo: http://mais.uol.com.br/view/k77arz6psxw4/lider-do-mtst-lembra-do-cinema-trianon-e-comenta-ocupacao-0402193262D8A983C6?types=A&

O abastecimento é um dos principais problemas do lugar e tem adoecido algumas pessoas. Uma menina de sete meses está internada no IMIP com suspeita de ter sido contaminada com a água sem tratamento do lugar. Ao menos a questão do lixo foi resolvido. “A coleta é feita todos os dias às 18h, por um caminhão da Emlurb”, conta Edson, dentro de um salão que serve de casa, no terceiro andar. O lugar amplo contrasta com as poucas coisas acumuladas. Dois colchões no chão onde dorme com a mulher e uma criança. Perto da janela guarda os documentos, produtos de limpeza e demais objetos pessoais. Do lado oposto, uma TV de 29 polegadas estrategicamente posicionada em frente à bancada onde é feita a comida.

CRIANÇAS – Claudineide da Rocha, 33 anos, é outra coordenadora do MTST. Ela tem três meninos pequenos. Calcula que vivam cerca de 50 crianças no Trianon. Grande parte não vai à escola, já que os moradores viviam em bairros da Zona Norte, como Alto do Pascoal, Bomba do Hemetério e Morro da Conceição. “Temos dificuldade de levar os filhos onde estão matriculados, pela distância, mas muitos já conseguiram se mudar para colégios do centro”, diz Claudineide.

Fotos: http://www.flickr.com/photos/jconline2/5078283747/

Priscila, que fica na portaria durante a manhã contou que abandonou a escola no segundo ano do Ensino Médio. As primas estavam no primeiro ano e também pararam de frequentar. “Não tenho condições de ir para a escola sem ter um trabalho, um estágio”, reclama. Jailton Serafim, 44, tem seis filhas. Ele é um dos líderes do MTST no Estado e mora no lugar mais privilegiado no Trianon: a cobertura. Comerciante do Mercado de São José, ele divide seu tempo entre a venda de perfumes e a articulação de novas ocupações. “Além de todo o trabalho que temos de organizar tanta gente nesse local tão grande, a nossa tarefa também é de fazer essa pressão social, essa coisa política”, diz.

Do alto do edifício é possível ter uma visão ampla do centro do Recife, a Rua da Aurora, o Rio Capibaribe e a Avenida Guararapes, com os Correios à frente. Muitas pessoas querem morar no Trianon e a procura tem sido grande nesse pouco mais de um mês. “Damos prioridades a casais com filhos. É muito difícil que uma pessoa solteira, sozinha, encontre espaço aqui”, informa Serafim sobre a organização. Encostado na bandeira do movimento fincada no parapeito da cobertura, ele faz questão de evidenciar pormenores da estrutura da ocupação. “Aqui todo mundo é cadastrado, tem carteirinha”. E completa. “Vivemos aqui. Estamos preparados para lutar”.

Mídia Corporativa: Paulo Floro (JC Online)

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