recife resiste!


Os Sem Terrinhas em Pernambuco
20/11/2010, 11:28
Filed under: notícias | Tags: , , ,

O jornalista Davi Lira escreveu três matérias para o JC Online sobre os Sem Terrinha em Pernambuco. Elas vêm em boa hora por estar se aproximando o Encontro Estadual dos Sem Terrinha.

– Encontro Estadual dos Sem Terrinha
Para participação voluntária junto às oficinas recreativas:
Cássia Bechara, do Setor de Comunicação e Cultura do MST-PE
cassia@mst.org.br

Confiram:

Confira números do MST em Pernambuco e os problemas na educação dos sem terrinha

A atmosfera monotemática e agreste ainda é onipresente durante o trajeto rumo ao assentamento Camurim Grande/Constituinte, na zona rual do município de Água Preta, distante 126 km do Recife e que acolhe 158 famílias desde 1995. No percurso, a poeira da terra batida e a cultura da cana são predominantes. O maior espaço do roçado das famílias do assentamento conserva, inclusive, a cultura da cana-de-açúcar. O preço da tonelada de cana cortada chega a custar R$ 50 e o seu escoamento é facilitado pelas agroindústrias vizinhas.

“O plantio do arroz, feijão, milho, mandioca, banana e do coco acaba ficando muitas vezes apenas como subsistência”, afirma a merendeira de uma das escolas do assentamento Welitânea Oliveira. Mais outra batalha, essa do enfrentamento à “cultura do atraso” a ser atacada pela “ocupação da escola” – segundo palavras da pedagoga Aninha, do Setor de Educação do MST.

O fato é que a partir da posse da terra, a despeito do uso da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, outros problemas vêm à tona. Questões de infraestrutura, saneamento básico, saúde e transporte afetam drasticamente a qualidade no ensino.

“Os meninos gostam desse assentamento, mas sabemos da precariedade das escolas, da dificuldade de acesso deles e dos professores, por problemas no trajeto, nas estradas que ficam inacessíveis no inverno, do atraso da merenda que ocorre por parte da prefeitura e em alguns problemas no repasse dos R$ 25 do Programa de Erradicação do Trabalhado Infantil (Peti) que têm direito alguns deles”, afirma Aninha, envolvida com o MST há 8 anos. Ela também chama atenção para o atendimento médico – no posto, segundo ela, há apenas uma enfermeira.

A poluição do Rio Una, que margeia a localidade de Camurim, é criticada por ela, que vê no Rio uma promessa de lazer e beleza para o local. “É uma pena os meninos não poderem se refrescar na bacia do Una”, observa. “A contaminação das agroindústrias inviabilizam os sem terrinha de sentir mais ainda que são donos da terra e do espaço onde vivem”.

DEFICIÊNCIAS NO CAMPO – O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), divulgou em 2007 a Pesquisa Nacional da Educação na Reforma Agrária (Pnera) onde apontou a quase universalidade da presença das crianças de 7 a 14 anos nas escolas do campo.

O grande problema ficou com o grupo etário de 15 a 17 anos, que corresponde à idade adequada ao ensino médio, modalidade de ensino que não é oferecida na zona rural pela maioria dos municípios brasileiros. São cerca de 30% de jovens fora das escolas.

Os que buscam a continuidade do ensino nos centros urbanos dos próprios municípios algumas vezes são até hostilizados. “Já teve casos em que uma criança do campo se negou a ir para a escola na cidade porque não tinha chinelos. Ela passou por contrangimentos anteriormente por causa de sua condição social”, informa Débora Nunes, da Direção Nacional do MST, no site oficial do movimento.

MST EM PERNAMBUCO – Atualmente existem 214 assentamentos, localizados em 77 dos 185 municípios pernambucanos. São mais de 13 mil famílias assentadas definitivamente no Estado segundo dados das lideranças regionais do MST.

Um dos 178 acampamentos de lona do MST no Estado, o Eldorado dos Carajás, também em Água Preta, possui 128 famílias lutando pela posse da propriedade. No total, ainda existem 17 mil famílias sem a garantia do direito à terra, informa Critiane Cavalcanti da Direção Regional do movimento se apoiando em dados de 2010. Nesse locais, a situação da educação só não é pior pela presença de alguns núcleos de escolas itinerantes. No Brasil, ao todo, 2.250 escola públicas foram conquistadas pelo MST.

Nesse processo de luta por dignidade que envolveu mais de 502 mil trabalhadores nos mais de 1.170 conflitos agrários ocorridos em 2008, foram assassinados 28 integrantes, conforme relatório anual mais recente emitido em abril de 2009 pelo Setor de Documentação da Secretaria Nacional da Comissão Pastoral da Terra, vinculada à Igreja Católica.

Mídia Corporativa: JC Online

 

Identidade dos sem terrinha passa por revolução em assentamento pernambucano

Os sem terrinha são crianças iluminadas, vivem sob uma mística própria. Acordam com os raios solares que já despontam às 5h, com a companhia de um bom milho cozinhado da própria propriedade e se despedem da luz do dia com um merecido descanso, logo após o pôr do sol, às 18h. Nesse horário, o sono já não tarda a chegar, especialmente depois de uma rotina de trabalhos domésticos, busca por água, ajuda na agricultura familiar, escola e infinitas brincadeiras durante todos os intervalos possíveis. Quem o diga Carlos André, 6. “O que que eu mais gosto é correr e brincar de pega-pegô”, afirma o menino sem terrinha em uma de suas pausas.

Os filhos e filhas das 652 famílias de agricultores, a maioria ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que vivem na zona rural do município de Água Preta, a 130 km do Recife, na Zona da Mata de Pernambuco, conseguem conciliar sem problema a liberdade e tranquilidade do campo com as tarefas de manutenção da casa e da propriedade agrícola. A localidade é a segunda cidade com maior quantidade de famílias assentadas em Pernambuco – perde apenas para o município do Sertão do São Francisco Santa Maria da Boa Vista, que possui 2.032 famílias já assentadas em definitivo desde 1996.

Mas os cerca de 600 filhos das 158 famílias de trabalhadores rurais estabelecidos há exatamente 15 anos em um dos nove assentamentos da cidade, o Camurim Grande/Constituinte, passam por um verdadeiro conflito de identidade durante a apropriação do conhecimento em suas relações sociais, especialmente na escola. Isso porque a mística envolvendo a experiência de luta para a posse da terra feita pelos pais tem que se relacionar com o fato de que essa nova geração já nasce sob o desfecho do processo.

“Esses ´novos sem terrinha´ já crescem com a posse da terra garantida, mas é a linha de sobrevivência e as aspirações do movimento que nos motivam a trabalhar com os meninos a questão da ´pertença`, a construção da identidade de cada um deles”, afirma a bem articulada pedagoga Maria José, 27, ou simplesmente Aninha, do Setor de Educação do MST da Mata Sul de Pernambuco.

Essa complexa ideia sociológica é recebida de forma mais intuitiva pelos meninos. “Eu acho que eu gosto de ser sem terrinha. Aos poucos, vou conhecendo mais sobre isso, mas o que eu acho mais legal mesmo deve ser o encontro com os outros sem terrinha. Eu sei que tem muita diversão, mas eu nunca fui”, diz Cleberson José, 10, referindo-se ao encontro regional anual, focado na integração e troca de experiências, realizado no Recife com com mais de 2.500 crianças oriundas de assentamentos e acampamentos de lona de todo o Estado.

Neste ano o Encontro Estadual dos sem terrinha vai ser realizado entre os dias 22 a 24 de novembro no Ginásio do Geraldão, no Recife com ampla programação cultural.

E focar nesses temas requer necessariamente criar laços narrativos com a vida de lutas por direitos realizadas mais ativamente pelos pais. “A memória  assume um papel fundamental nos sem terrinha. Os pais contam aos filhos o que viveram, sonharam, temeram e conquistaram. A mística envolvida se relaciona com a experiência de vida da família. E, no caso da escola, a presença da pedagogia do MST busca trabalhar essa questão, através, também, da tematização do histórico de lutas”, aponta a especialista em Educação Deise Arenhart, em um amplo estudo desenvolvido na Universidade Federal de Santa Catarina.

Mas depois de 15 anos da posse da parcela de cada família (unidade de medida que representa cerca de 10 hectares que cada propriedade possui), não é automática a vinculação nem o interesse dos pequenos aos ideais de identidade do grupo, formado no Brasil como movimento social organizado a partir do final da década de 70. As palavras chaves que norteiam o movimento – organização, coletividade, terra, trabalho, produção e história social – precisam ser reavivadas nessa nova geração do campo.

Mídia Corporativa: JC Online

 

Ideologia do movimento sem terra é pouco conhecida pelas crianças assentadas

Não apenas na Escola São Joaquim, localizada na outra sede, Constituinte, assentamento fundado pelo Movimento dos Trabalhores Sem Terra (MST) no município Água Preta, em Pernambuco, como também na Escola Municipal Santa Inês, que possui 120 alunos, a realidade de luta do grupo margeia a rotina dos filhos das 158 famílias que vivem na extensa localidade de 1.769 hectares na zona rural da cidade.

“Os sem terrinha ainda estão aprendendo o que é latifúndio, e há um certo desprendimento no reconhecimento próprio”, observa a professora Luciana Oliveira, 28, que ensina há dois anos em uma das duas escolas municipais implantadas dentro do assentamento, a São Joaquim. O local possui apenas uma sala e conta com a modalidade de ensino multiseriado, onde cerca de 40 alunos de várias séries estudam no mesmo ambiente, da alfabetização ao 5º ano.

Luciana conta, por exemplo, que, quando foi abordada a agricultura, foram levados para os alunos temas como questão fundiária, o movimento e o cultivo familiar. “Inclusive posições ideológicas que divergem da nossa linha e que são mostradas diariamente na TV. Fazemos isso sempre utilizando material de apoio, como vídeos e cartilhas que possuem outros pontos de vista”, diz. Sobre episódios como o da destruição de 7 mil pés de laranja no interior de São Paulo, os meninos se posicionaram de forma firme. O caso foi um pouco mal compreendido, tendo em vista que eles “não entendiam como uma pessoa pode maltratar a natureza”.

O fato é que o “MST como doutrina” tem mais um caráter de evento – a menção ao pensamento ideológico do grupo não chega a ser trabalhado de forma corriqueira nas escolas. “Os livros que recebemos do Ministério da Educação ainda não traduzem completamente a realidade do campo que os meninos vivem; possuem uma visão urbana. Na sala, o MST acaba aparecendo durante os concursos nacionais de desenho e redação que promove”, critica a professora, moradora do assentamento. “Além do mais, muitos alunos não se interessam por isso. Só ficam mais atentos quando mostramos vídeos de outras crianças que também são sem terrinha e devem pensar de forma semelhante”.

Mesmo estando, em alguns momentos, alheios ao passado e ao presente de reivindicações, os sem terrinha adoram cantar os hinos do movimento e as palavras de ordem, uma espécie de grito de guerra autoafirmativo. “Somos sem terrinha, vermelho é nossa cor, somos da Mata Sul, somos transformador. Bandeira, bandeira, bandeira vermelhinha, o futuro da nação está nas mãos dos sem terrinha”, entoam, mesmo de forma um pouco desencontrada, os cerca de 20 dos 40 alunos da São Joaquim, durante chegada de visitantes.

Uma das melhores cantoras do grupo é sem dúvida Adriana Maria, de 10 anos. “Gosto de cantar os hinos e os gritos de guerra. A principal mensagem que eu gosto de passar é a de amizade”, afirma a garota que adora vestir rosa.

Mas a falta de uniformidade das vozes pode ser fruto da diferença de origem dos grupos – no assentamento, já havia famílias de antigos trabalhadores dos engenhos de cana que ali existiam, um pouco desvinculados do contexto mais amplo dos sem terra. Porém, mesmo oriundos de diferentes origens de luta, o ambiente do campo propicia uma convergência observada claramente entre essa nova geração campesina: é nítido o respeito que os pequenos tem à escola, à família e especialmente à natureza.

Mídia Corporativa: JC Online

 

Anúncios

Deixe um comentário so far
Deixe um comentário



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: