recife resiste!


MST: CADA UM É UM SEM TERRA
28/11/2010, 23:24
Filed under: digressões, notícias | Tags: , , ,

Em São Lourenço da Mata, cidade pernambucana que sediará a Copa do Mundo de 2014, está localizado, a 19 km de Recife, mais um acampamento do Movimento Sem Terra do país. 326 famílias estão alojadas em pequenas casas de taipa. Cada uma tem a sua moradia provisória, mas todas compartilham um sonho: a terra própria. A bandeira vermelha hasteada balança, e, na estradinha que dá acesso ao acampamento, a primeira visão é de uma lona de circo armada. Circo que não tem a ver com os acampados, mas, pela proximidade geográfica, até parece ter. Não existe infraestrutura: as casas, um espaço de convivência comunitária e o roçado de cada família, só. As crianças estudam no próximo e pequeno distrito de Matriz da Luz, e assim se leva a vida no acampamento Maria Paraíba desde fevereiro de 2010.

O MST se estruturou no Brasil na década de 1980, quando alguns camponeses decidiram lutar pela idéia da qual há algum tempo haviam se convencido: a ocupação de terras é legítima e fundamental na batalha contra a desigualdade social. Países ditos desenvolvidos, como os Estados Unidos, começaram a promover a reforma agrária ainda no século XIX. “O Brasil mal começou”, diz o senhor Otávio Pedro, 68 anos, que tem um barraco no Maria Paraíba e admira a organização do MST. Assim como outros acampados, Seu Otávio não dorme todos os dias no acampamento, pois tem também uma casa em Matriz da Luz.  O senhor de 68 anos diz que não precisa tanto de um pedaço de terra, mas que está ali para ajudar os companheiros a conseguirem o seu roçado. Nele o princípio de coletividade é vivo, assim como no senhor Severino Araújo, que, mesmo aos 58 anos de idade, pretende acompanhar o MST sempre que necessário: “Assim como os outros lutaram por mim, vou lutar por eles também”.

De maneira geral, a história de cada família se assemelha: ex-cortadores de cana da Usina Bulhões, agora demitidos e com os pagamentos atrasados. A origem pode ser a mesma, a situação atual também, mas cada um cria expectativas diferentes para o futuro. Ao contrário do Seu Severino, João Francisco não pretende continuar no Movimento após conseguir o seu pedaço de terra — está previsto que cada família receba de sete a dez hectares —, mas com os seus 43 anos ainda consegue sonhar com a tal reforma agrária.

As subjetividades se manifestam no Movimento de acordo com a vivência de cada um. O estudioso Michel de Certeau já apontava que o cotidiano se produz em meio a várias táticas que burlam as formas tradicionais de orientação do poder: é regido por uma antidisciplina que vai de encontro com qualquer tentativa de homogeneização de um grupo. Muitos pesquisadores se debruçam ao estudo da construção dessa individualidade dentro de movimentos sociais. Rui Gomes de Mattos, professor do Departamento de Fundamentos Sócio-Filosóficos da Educação (DFSFE) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é um dos que possuem estudos sobre tal tema: “O enraizamento dos indivíduos em um coletivo não      significa, obrigatoriamente, perda de individuação”, disse citando especificamente o caso do Movimento Sem Terra.

O professor ainda afirma que, através de troca de experiências e parcerias com universidades, o Movimento estimula nos integrantes a construção de um conhecimento autônomo: “Tudo isso são indícios de que o Movimento não é fechado, tipo uma seita que tange indivíduos como gado”, conclui. No entanto, é preciso reconhecer que as particularidades muitas vezes também funcionam como um álibi para justificar atitudes consideradas não aceitáveis pela Organização, mas tomadas por alguns integrantes do MST: a venda de terras conquistadas através das ocupações é uma destas atitudes.

Algumas vezes a Organização parece distante do povo do acampamento de Maria Paraíba. Érica, com 28 anos e mãe de três meninas, chegou ao acampamento por intermédio de uma amiga: “os sem-terra tão por aí, quer teu barraco não?”. Considera-se do Movimento, mas confessa não compreendê-lo muito bem. Outros acampados como Alessandra e João Francisco não conhecem as lideranças, a jovem afirma que, quando houve a visita dos membros do MST, ela não estava no acampamento. Há o desconhecimento, inclusive, do que é a reforma agrária. O senhor João Sebastião diz que não entende do assunto “porque o MST não mandou folhetos explicando”.

No entanto, o desconhecimento não é geral. Enquanto muitas famílias conheceram o Movimento dos Sem Terra depois da ocupação, o senhor Otávio Pedro, com seus 68 anos, dá uma aula de reforma agrária no Brasil e no mundo, e ainda explica o Estatuto da Terra. O que sempre há de comum entre os lemas do Movimento e os seus integrantes é o amor pela terra e o desejo de plantar em um terreno próprio, sem que haja um patrão para cometer qualquer tipo de exploração. “Se o campo não planta, a cidade não janta”, disse Seu Otávio Pedro citando um dos jargões do Movimento. “Tem coisa mais linda do que uma árvore plantada?”, pergunta Seu João Sebastião, 63 anos. “Meu sonho é ter meu pedaço de terra para plantar meu inhame, meu milho, minha mandioca”, fala Seu Severino Araújo, demonstrando a paixão pela “lavoura branca”. Talvez essa vontade seja bastante pessoal, presente mesmo antes do ingresso no MST, mas a característica não deixa de identificar o grupo Brasil afora.

Um Movimento noticiado pela mídia como violento já amedrontou os hoje integrantes do MST. A jovem Alessandra, que tinha receios pelo o que via na televisão, hoje vive uma realidade a qual não imaginava: “todos são unidos”. Seu João Sebastião diz que “não faz medo” e que “o MST só entra na terra quando o dono não quer progredir”. Como se sabe, o Movimento só ocupa terras improdutivas, e esta é, inclusive, uma das maiores justificativas do MST perante a acusação de invasão de propriedade privada.

O Movimento Sem Terra é complexo e polêmico o bastante para incitar defesas e críticas apaixonadas – muitas vezes exacerbadas. A unidade de ideias não existe nem dentro do próprio Movimento, o que confirma que, antes de serem Sem Terra, os integrantes são sem-terra. São pessoas que, embora unidas – conscientemente ou não – contra a opressão do sistema capitalista, têm desejos e expectativas próprias. E é importante que a subjetividade de cada um sirva de base para a construção da autonomia dos indivíduos perante o Movimento. Autonomia esta que deve permitir que todos os integrantes compreendam e até questionem a proposta do MST, de modo que o Movimento seja formado não por pessoas que, por necessidade, se submetem a líderes com ideias já formuladas, mas por pessoas que construam, aos poucos, seus próprios ideais e se unam de maneira consciente para lutar por eles.

Recife Resiste!

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2 Comentários so far
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Q lindo. Adorei a parte da subjetividade que constrói.

Passarei a acompanhar o sítio. Obg.

Comentário por pajé

po, muito bom esse artigo

Comentário por Clarissa




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