recife resiste!


Tempo de tolerância nos jornais
31/03/2011, 19:56
Filed under: digressões | Tags: , ,

Se as revoluções democráticas na Tunísia e no Egito ocorressem em Pernambuco, os jornais possivelmente trariam manchetes como “Mais uma tarde de caos no trânsito” com matéria vinculada “Congestionamento durou seis horas”. Foi assim durante a mobilização dos camelôs, em dezembro de 2010, e, recentemente, na passeata dos estudantes contra o aumento no preço das passagens de ônibus.

O pressuposto de liberdade da cartilha liberal, o direito de ir e vir, aparece como critério-notícia da ordem do dia, relegando a reivindicação dos movimentos sociais para segundo plano. Prova disso é carta ao leitor veiculada pelo Diário de Pernambuco no última segunda-feira (31/01). A sugestão é impor o “tempo de tolerância” para os protestos no espaço público.

Ao se referir a um bloqueio feito por moradores na BR-101 Norte, em Igarassu, o missivista reitera a cantilena. Diz ele que “deveria haver pela polícia uma tolerância de aproximadamente 15 minutos em cada protesto e a partir daí partiriam para a força, pois não é admissível que fiquemos à mercê de protestos esdrúxulos”.

A invenção do “outro” como inimigo margeia o discurso indolente de moços e bandidos. Reforça o ideário de que questões sociais são caso de polícia, a primeira acionada no discurso da não tolerância reforçado pela mídia. A memória não permite esquecer. Em 2005, durante o protesto dos estudantes contra o aumento no preço das passagens de ônibus, os jornais preferiram levar o caso aos xerifes.

“PM age tardiamente e perde controle sobre manifestantes”, estampava manchete do Jornal do Commercio há cinco anos. A administração pública, seguindo o eco de uma pseudo-opinião transformada em notícia, recorreu ao alívio-imediato, um diagnóstico recém-fabricado por quem se dizia especialista em questões públicas no retorno à “normalidade”. Passados dois dias, o discurso do jornal era argumento de governo.

Vale lembrar o que foi escrito: “A passividade demonstrada pela Polícia Militar nas primeiras horas do segundo protesto estudantil contra o aumento das passagens de ônibus, na sexta-feira passada, não deverá se repetir. Ontem, o secretário de Defesa Social, João Braga, garantiu que a determinação a partir de agora é coibir com força os atos de vandalismo e baderna (…)”.

A reprodução de estereótipos em relação ao “outro” trazida pelos jornais abarca a negação da controvérsia, uma luta pelo reconhecimento negada de antemão. A margem desse discurso único reafirma a distinção entre as fontes visíveis e as invisíveis da cobertura midiática. Nesse processo de exclusão e de violência travestida em símbolos, o congestionamento sempre vencerá a reivindicação dos autores de protestos considerados “esdrúxulos”.

Ao reproduzir os preceitos de um público presumido na ordenação dos acontecimentos, os jornalistas terminam por se aproximar de um referencial elitista, isto é, das concepções hegemônicas de uma parcela do público leitor e consumidor da notícia como mercadoria. Talvez, mesmo com ditadores como Mubarak e os protestos pela democracia no Egito, nosso noticiário não seria diferente. Faríamos como a TV Globo em 1984, durante os comícios pelas diretas, em São Paulo, quando, diante das mobilizações de combate à ditadura, um repórter insistia: “longo engarrafamento hoje na cidade”.

Por Rafael Marroquim

Fonte: Ombudspe

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