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O que o Estado, a polícia e a Ordem têm a ver com a Marcha da Maconha?
23/05/2011, 16:46
Filed under: digressões, notícias | Tags: ,

Esse texto é uma tentativa de construir uma outra Marcha da Maconha e não destruí-la. Estávamos presentes e sempre vamos estar, entretanto faz parte do processo repensar os caminhos da luta para entender onde estamos indo e onde queremos realmente chegar.

 ***

 Vitoriosos, em primeiro lugar, por que tivemos mais participantes do que a Marcha da Família. Eram cerca de 2 mil maconheiros e simpatizantes contra mil neo-inquisidores da tradição cristã que fizeram todo mundo lembrar da histórica marcha da Família com Deus pela Liberdade que deu sinal verde para a virulenta ditadura militar. Derrotados, em seguida, pelo caráter despolitizado e ordeiro da “nossa” própria marcha.

A Marcha da Maconha em Recife acontece uma vez por ano em dias de domingo no Recife Antigo. Esse dado por si já aponta a festividade despolitizada da Marcha. Marchando de ponte em ponte numa cidade esvaziada, os participantes criam uma simulação de manifestação política que se completa num espetáculo oferecido às câmeras jornalísticas bem posicionadas pra captar a festa exótica. Enquanto isso nos microfones os “organizadores” insistem que se trata de um movimento ordeiro e pacífico, deixando nas entrelinhas que ao contrário de ser um movimento que incomoda o Poder é um movimento que o elogia. Por que inclusive a Marcha da Maconha parece ser um filho meio ovelha negra do Governo do Estado, mas continua sendo um filho. Assim, esse filhinho alternativo marcha numa hora e num local estabelecido pelo pai para finalizar com a entrega de algumas reivindicações, sabendo bem que é o pai quem manda.

Essa conduta se traduz na seguinte fórmula: o Estado possui a total tutela dos nossos direitos, se quisermos que alguma coisa mude devemos pedir ao Estado que se mude e esperar as mudanças surgirem de cima pra baixo. Quando a conduta deveria ser: o Estado é um instrumento de dominação subordinado ao poder corporativo do capital e a inércia burocrática; é, portanto, ilegítimo. Não devemos pedir a ele que faça nada, nosso diálogo é com a sociedade civil e é a partir dela e por meia dela que conseguiremos orquestrar mudanças significativas em nossas vidas. E o que acontece é que não estamos dialogando com a sociedade civil fazendo um movimento que se limita a marchar domingo no Recife Antigo uma vez por ano.

O governismo dos organizadores declama: “estamos pela Ordem, pela Paz e pelas Leis do nosso País!”. Que Ordem, que Paz e que Leis? É como se Ordem, Paz e Leis fossem categorias neutras, sobre-humanas, cuja manutenção não tem nenhuma relação com as relações sociais opressoras que vivenciamos hoje. Ser ordeiro e pacífico em tempos como esse é escolher pela passividade diante de um sistema que se funda na violência e no desrespeito com a vida e bem-estar humano. Por que em algum muro já foi lido que “Se a Ordem é injusta a desordem é um princípio de justiça”.

Estamos diante de um movimento que respeita a Ordem e as Leis do país por que é um movimento chapa branca, comprometido com o Governo. O ato é organizado a partir da regulamentação policial. A realização do ato depende da aprovação do Ministério Público e o trajeto é previamente combinado com a polícia que, por sua vez, acompanha os marchantes durante toda a caminhada. Uma manifestação que envolve duas mil pessoas reúne condições suficientes para que, a partir da espontaneidade, de questões que estouram ali, na rua, ganhe força e conquiste suas demandas. Mas na Marcha da Maconha a potencialidade do ato em tomar outras proporções reivindicadoras é negada pelo acordo dos organizadores com a repressão. Ela já nasce morta quando começa abraçada com a polícia.

Estamos pela liberação da maconha por que é um contexto favorável para tal, entretanto é importantíssimo dizer que os argumentos usados para justificar a maconha podem ser facilmente usados para justificar uma série de outras drogas. Mas a Marcha constrói uma hierarquia onde a maconha está em cima e as outras drogas são completamente menosprezadas, quase perseguidas. A maconha não pode ser tomada isoladamente. A questão da maconha é a questão das drogas, é a questão de um sistema fundado na disciplina e controle dos corpos para a produtividade. Além disso precisamos repensar o que os “maconheiros” pensam do tráfico de drogas. Há uma inversão no discurso que elege o tráfico como o bode expiatório, como se ele fosse o único e absoluto responsável pela violência em torno das drogas. Na realidade o que torna as drogas miticamente violentas é o proibicionismo e não as drogas tomadas isoladamente. É a força policial que no controle das drogas faz uso da violência. Aonde quer que esteja a polícia com ela estará a violência.

E, finalmente, existe alguma coisa muito errada com um movimento pró-maconha que chega a aplaudir a polícia ao mesmo tempo em que está constantemente reunindo esforços para combater os “bandidos”.

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8 Comentários so far
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No final ainda falaram que o pessoal em SP rasgou a constituição…

Pediam constantemente sobriedade (leia-se passividade), tudo estava sob as rédeas da organização. Apenas nos pediam que marchássemos. Nada mais ordeiro…

Comentário por abc

a galera é acompanhada pela mesma polícia que bate nos usuários de drogas. eu heim.

Comentário por ff

Então, achei massa a idéia do texto. Realmente é algo fundamental discutir novas alternativas, inclusive organizacionais, no combate ao discurso proibicionista.
Mas tipo, acho que um movimento que se coloca pela descriminalização ou pela legalização da maconha (dois conceitos atrelados ao Estado e seus aparelhos de controle, ou pode-se também pensar a regulamentação, que também remete à idéia do Estado fiscalizador dos corpos) claramente não tenta se colocar contra ele.
Além disso, uma marcha pacífica também é forma de luta. Apesar de eu achar que precisamos de novos atos, mais diretos e contundentes (um fumódromo em público de um coletivo é uma boa, mas que necessita de coragem, e alguns muitos não a tem).
Não acho legal levantar bandeiras políticas (partidárias ou não) que não são compartilhadas integralmente pelos que são a favor da liberação da maconha. O uso da maconha deve ser livre, independetemente do modelo político e econômico de sociedade que desejamos. Desejo o consumo livre da maconha já, agora, nessa sociedade que vivo, depois ou paralelamente, lutamos por outras melhorias, inclusive pela liberação das outras drogas (também penso que todas devem ser consumidas livremente, e que a proibição não ajuda em nada, nem mesmo quem deseja parar com o uso de alguma).

ps: aplaudir a polícia realmente foi foda.

Comentário por Allan

Concordo plenamente com esse comentário. ia até comentar o texto. mas ele resume bem o meu pensamento.

Comentário por Alexandre

Minha gente…
Dessa forma, então, só não seríamos “ordeiros” se participassemos da marcha chapados, quebrando tudo, sem rumo e enfrentando a polícia?…
É válido a atenção às perniciosidades do Estado burocrático burguês, mas eu realmente acho muito “quém” essa postura estadófoba… O que se quer então?

Comentário por Otávio Augusto

ps: mas, aplaudir a polícia foi foda mesmo!

Comentário por Otávio Augusto

O que acontece, Otávio, é que a gente ta cansado de ver movimento/desfile de rua que marcha marcha e depois entrega um documento ao Estado. Como se legitimasse a tutela que esse tem de todos os nossos direitos, num sentido ideológico, e como se alguma coisa fosse acontecer por isso, no sentido prático. Eu acho realmente que é pensar muito pequeno se contentar com esse tipo de coisa, com entreguinhas de documentos e ficar esperando o próximo político levar isso pra frente.
É importante considerar formas de pressão que não passem pelo formalismo legal e que, mais importante ainda, transite pela sociedade civil sem o intermédio do Estado. Ao contrário de ser “estadofobia” é um alerta pra a real possibilidade de levar as coisas pre frente sem passar por esse formalismo, que inclusive só faz travar as lutas (quem participou do último protesto das passagens viveu um exemplo entre vários em relação a isso).

A gente também ta cansado de ver politicagem chapa branca em movimento social, burocratização e tutela das lutas por forças que ocupam ou logram ocupar o Estado. Sindicatos, entidades estudantis e etc. que inclusive quem “organiza” essa parada é gente ligada a partido de esquerdinha, da índole de UNE, UJS e por aí vai…

Comentário por bento

Penso que o caráter pacífico da manifestação possa ser interessante para convocar a população de uma forma mais abrangente. “Se a Ordem é injusta a desordem é um princípio de justiça” Concordo. E essa desordem toda faz parte da ordem injusta. A violência tá no tráfico e tá também no combate dos policiais ao tráfico. Policiais que também são personagens da marcha, como causadores da ordem ou filhos da puta que se aproveitam do poder pra agir com violência. Na marcha pacífica, a violência é silenciosa, mesmo que ninguém apanhe há a repressão. (não presenciei a marcha, mas foi isso que o texto quis dizer?). Mas é importante questionar o que uma reação à essa repressão traria.
É fácil para quem fuma, quem lê, quem tem algum acesso maior à essa discussão estar a favor da marcha. Mas pra a maioria da população, as notícias chegam pela televisão, pelas rádios evangélicas (que gastaram semanas difundindo o tema, na verdade difundindo a visão dos deputados representantes sobre o tema, como bem sabemos). Daí a importancia que existiria na pacificidade (diferente passividade) do movimento. Todos os pontos levantados no texto são muito pertinentes, mas creio serem pensamentos mais elaborados e por tanto, elitizados.
Imagino que nós (não sei exatamente quem lê esse blog, mas me arrisco sim a dizer isso), além de mais acesso à informação temos uma convivência com drogas bem diferente do que as pessoas que moram perto de boca de fumo, que presenciam toda a violência que isso traz, que tem alguém na família que usa crack. Pra a maioria dessas pessoas, a informação dos pastores, das rádios evangélicas é a que chega mais fácil, suponho, e a discussão fica longe. A associação simplista droga como causadora direta da violência é tirada por muitos pelo que vêem no dia-dia. Daí a preocupação maconha como porta para outras drogas, que também tem outras dimensões no meio popular.
É bem diferente um jovem de classe média que experimenta maconha e abre a cabeça para outras drogas (geralmente cocaína e LSD) de jovens com baixa renda que começam a usar crack. Diferente principalmente porque os de baixa renda estão marginalizados à informação, costumam ter uma estrutura familiar menos estável, estão mais próximos da criminalidade, enfim, estão mais fragilizados socialmente. E essas pessoas tem que estar na discussão também, mas como? E os policiais, entram também? Policial não é o que a pessoa é, é o emprego que ela tem.
E isso de legalizar outras drogas? A liberdade de cada um consumir o que quiser, responsável pelo seu corpo? Dizem que cocaína fode quase todos que experimentaram. Conhecemos muita gente que usa vez ou outra, e até agora não passa nada. E o crack, será que as pessoas passam a usar por liberdade de escolher suas experiências? E continuam por isso também?

Comentário por luzía




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